quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Quebrando o tabu? Qual?


Não há de se negar a importância em discutir o tema! E a repercussão do filme para assinalar a necessidade de repensar as perspectivas as quais nos pautamos em relação ao uso de drogas. Considerações em relação a política repressiva, que tem causado problemas de ordens diversas, como do encarceramento crescente, a violência, o tráfico, a falta de informação e criação de mitos em relação aos usuários, entre outros.

Mesmo com todos os pontos citados e a real necessidade da discussão do assunto, vou me ater a um ponto do filme: a lógica de 'patologizar' o usuário de drogas! Se por um lado a tentativa de quebrar o tabu que visualiza o usuário de drogas, especialmente de maconha, como criminoso, a discussão traz nas entrelinhas (ou não)  o discurso biomédico como 'solução' para o fenômeno. Dessa forma, o uso de drogas cai em um novo tabu: de tratar o indivíduo como doente!

A saúde é uma perspectiva limitada, assim como a justiça, ou qualquer outra esfera que tente compreender e criar, sozinha, estratégias sobre um fenômeno tão complexo. De forma a considerar as restrições da saúde, mas sem descartar sua contribuição.

No Brasil, especialmente a partir dos anos 90, a necessidade de aumentar e melhorar a qualidade dos serviços de saúde destinadas a essa população, começa a ter ampliada sua discussão. E, atualmente, os serviços que tem como diretriz a Política Nacional de Atenção Integral ao Usuário de Drogas, na qual deve haver alternativas de cuidado a saúde independente da situação de uso, a medida que esses espaços são requeridos. A singularidade da relação entre o sujeito e a droga deve ser respeitada pelo profissional de saúde, acolhida sua condição de uso (querer parar, não querer parar ou/e não conseguir) e construir objetivos (menos hipócritas e mais realistas) em parceria.

A medida que o filme convoca a saúde como perspectiva primordial na abordagem do tema e, no contexto de oferta de serviço, em estruturação, mas ainda limitados, é necessária repensar as alternativas as quais a proposta do filme nos coloca!

Dentre as alternativas mais numerosas, e por isso mais utilizada, ainda é a Comunidade Terapêutica. Dessa forma, a necessidade de pensar: Quais instituições são essas? Quem tem financiado essas instituições? Quais as estratégias utilizadas? Quais suas reais propostas de intervenção? Essa intervenção esta baseada em que lógica?

Não pretendo responder essas perguntas! Mas talvez o 'Relatório da 4º Inspeção Nacional de Direitos Humanos: locais de internação para usuários de drogas' consiga nos auxiliar a pensar, pelo menos, em quais estratégias tem sido usadas. Alguns dos achados do apontam: condições indignas de assistência, utilização de mão de obra não remunerada, falta de receituários, imposição de credo e desrespeito a liberdade religiosa, adoção de medidas punitivas, violência física, negligência de cuidados, restrição da liberdade, desrespeito a liberdade sexual e identidade de gênero, constrangimento, violação de correspondência, entre outros.


Deixo mais uma questão: se o filme coloca a saúde 'nesse' patamar de implicações e o maior número de 'serviços de saúde' hoje são as Comunidades Terapêuticas, quem esta ganhando para a manutenção dessa instituição? Qual o interesse de promover essa ideia do usuário como doente? Lembro de uma fala que ilustra essa ideia: "Quanto mais demonizam as drogas mais deusificam o tratamento". E, assim, além da necessidade evidente de rever essa 'demonização das drogas' acho que devemos repensar esse tratamento 'deusificado', especialmente a quem ele tem servido!

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